Caminhar, fotografar, perder-se...
“Mas eu não sou caminhante, não sou trekker …” Foi mais ou menos isso que eu pensei da primeira vez que o Freddy me pediu um artigo sobre fotografia para o site. E essa questão puxou outras. Questões sempre vêm em conjunto e geram outras questões, não é? “Não sou fotógrafo de natureza; não vivo disso”. Vivo de dar aulas de fotografia, de fotografar para revistas. Como vou contribuir com um site para amantes de caminhada, da vida lá fora da rotina, lá em cima das montanhas, lá dentro das florestas?
Pensei… Eu adoro fotos de natureza; é verdade. Voltei da Nova Zelândia com centenas de fotos de natureza… fotos que me proporcionaram um prazer indescritível durante o clic e depois. Um dos meus fotógrafos preferidos, o Galen Rowell, era montanhista; e um dos maiores professores de fotografia dos Estados Unidos. Começou a fotografar porque queria registrar as vias que ia conquistando as escaladas cada vez mais emocionantes. Acabou tornando-se fotógrafo profissional. Será que ele ficou se perguntando sobre se podia ser fotógrafo sendo ele Montanhista e Alpinista? Será que esse tipo de pergunta ajuda?”
Continuei pensando… Bom, eu fiz o Caminho de Santiago de bicicleta; isso lá é verdade. Talvez tenha sido a única experiência próxima desse universo que eu tive. Como foi mesmo que eu decidi fazer o caminho? Precisava parar e pensar na vida. Precisava decidir se continuava na direção em que estava ou mudava de vida. Alguma coisa lá no fundo dizia: ‘Precisa parar? Porque não parar, pedalando o Caminho de Santiago?’ É verdade… em nenhum momento eu pensei se era caminhante, “pedalante”, aventureiro… eu só precisava ir. E indo, fui sendo, pedalando, caminhando, empurrando a bicicleta, tomando chuva, quarando no sol, agüentando o vento, a poeira, fotografando, pensando, escrevendo e decidindo; adorando tudo o que acontecia ao longo do caminho.
Fui sem ser caminhante ou aventureiro e não voltei sendo. No entanto, enquanto estava lá, estava sendo. Às vezes acho que fui e nunca voltei, porque fui de um jeito e voltei de outro, mudado pela experiência. Fui pra mudar de vida, mudar de prática, mudar de humor. Em nenhum momento ser ou não caminhante ou aventureiro foi uma questão. Ainda bem!
E você? Você se pergunta se é fotógrafo quando está no pico de uma montanha, depois de horas de uma subida longa, amando a vida mais que nunca?! Ou você simplesmente pega a sua câmera e registra aquele lugar maravilhoso, aquele sentimento indescritível de chegar, aquela alegria que é um misto de cansaço com realização?! Ao voltar da viagem, depois de revelar o filme, ou descarregar as fotos no computador, você se desculpa consigo mesmo pelas fotos não serem tão boas, porque afinal de contas você não é fotógrafo?! Mostra as fotos pros seus amigos e parentes, dizendo: “Não repara não porque eu não sou fotógrafo, tá?”
Será que eu não sou caminhante, aventureiro? Será que você não é fotógrafo? Mas eu estava lá! Eu subi pedalando o “Cebreiro”, a montanha que divide a Galícia do resto da Espanha! Pedalei na chuva, dentro de um rio, no meio da floresta, por despenhadeiros de pedra. E você?! Você não estava lá?! Não sentiu alguma coisa que não tem nome? Que te fez levantar a câmera e enquadrar aquilo que seus olhos já tinham enquadrado? E você não bateu a foto?!
Nessa hora - na hora do clic - você registrou a relação de tudo aquilo que ia dentro de você com tudo aquilo que estava ali do lado de fora, em volta, em cima, em baixo, ao lado. E nessa hora não existe mais dentro, fora, em cima, em baixo, ao lado. Nessa hora alguma coisa que não tem nome vira imagem através da câmera. E te permite trazer com você aquela relação que aconteceu naquele momento pra baixo da montanha, pros seus amigos, pra sua família, pros seus colegas de trabalho. Você traz de volta, em forma de imagem, um momento maravilhoso, inspirador pra você e para os outros, alguma coisa que mudou a sua vida mesmo que você não perceba. Isso não é ser fotógrafo?
Da minha viagem a Santiago de Compostela eu também trouxe de volta algo assim. Trouxe uma mudança… fui de um jeito e voltei de outro… sem pensar muito, sem muitas questões. Trouxe em forma de uma vida nova aquilo que eu nem sabia que podia ser. Alguma coisa que torna minha vida maravilhosa todos os dias, mesmo quando eu não percebo. E trouxe fotos, é claro! Para mostrar pros meus amigos como foi esse negócio de não ser aventureiro e ir ser!
Será que eu sou um aventureiro e não sei? E você? É fotógrafo e não sabe? Será que todas essas perguntas importam?! Quem sou eu? Quem é você?! Será que a gente pode descobrir isso simplesmente olhando pras fotos que a gente traz de volta de uma caminhada, de uma escalada, de um passeio?! Vamos ver! Uma vez por mês nós podemos nos encontrar aqui, nesta coluna, para descobrirmos um pouco mais o quanto a fotografia pode nos ajudar a trazer de volta tudo àquilo que a gente saiu pra buscar em uma aventura! Espero por vocês! Um abraço, André.
Ps - Se você quiser, mande suas perguntas sobre fotografia para nós! A gente pode responder no artigo e também podemos mostrar a sua foto! Quem sabe a sua dúvida ou a sua questão não pode ajudar muitos de nós a avançar nessa maravilha que é fotografar de dentro pra fora, de fora pra dentro, fotografar com os olhos, a mente e o coração?!
André Spinola e Castro é fotografo profissional, professor de fotografia e fundador da escola de fotografia REVER (www.rever.fot.br).
Contato: andre@rever.fot.br